O Negro no Futebol Brasileiro

Charles Miller trouxe para o Brasil o futebol europeu, duro , sem ginga,sem graça e que só poderia ser praticado por brancos e ricos.

Tentamos durante algum tempo resistir à sua popularização, mas em um país como o nosso, composto por uma sociedade mestiça, cheia de raízes africanas, não poderia acontecer outra coisa senão o descrito pelo sociólogo Gilberto Freire no prefácio para o livro O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho, publicado em 1947.   


“O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura”.

Mário Filho registrou, neste livro, algumas histórias acontecidas no futebol carioca que retratavam a realidade brasileira: Carlos Alberto, jogador negro do Fluminense que tentava  disfarçar a cor usando pó de arroz e que ao correr e suar via seu disfarce escorrer pela pele negra. Róbson,  já com status de craque acompanhava um colega negro que foi vaiado e procurando tranqüiliza-lo dizia: “Calma, não liga, eu também já fui preto”.


O primeiro clube carioca a “abrasileirar” o futebol foi o Vasco da Gama. Percebendo que os desocupados ou subempregados em 1923 eram, em sua maioria, negros, mulatos ou mestiços que não encontravam uma colocação num mercado de trabalho de poucas oportuni­dades. Foi com eles que o Vasco montou seu time titular de três negros, um mulato e sete brancos pobres. E, para espanto de todos, vencia jogo após jogo, massacrando seus adversários. Foi com um time assim que o Vasco tinha chegado á primeira divisão. Enquanto jogava contra clubes pequenos, ninguém tinha reparado que havia negros no time.

Em São Paulo também  o racismo teve que se curvar ao talento e a força da raça.

Vejam esta notícia publicada no Correio Paulistano em 11/07/1904.

“Ousadia- Ontem à tarde quando se disputava no Velódromo o jogo São Paulo Athletic e Germânia, foi preso o negro Alcebíades Antunes, que estava – vejam só que ousadia – trepado no muro assistindo ao jogo.

Fatos como este fizeram com que os negros, para jogar futebol, criassem seus próprios espaços. Construíram na Várzea do Carmo vários campos de futebol. Com espaço próprio para jogar e com muito talento não demorou muito para surgirem os craques até hoje reverenciados no nosso futebol. Além disso surgiu aí o maior celeiros de craques: A várzea.

O Sargento do Corpo de Bombeiros Abílio Moraes foi o responsável por aprender as regras e táticas e transmiti-las na Várzea. As regras foram aceitas, mas as táticas, rejeitadas, pois entre os brancos o drible era taxado como descortesia ao adversário.

Felizmente surgiu na várzea do Carmo a verdadeira identidade do futebol brasileiro, pois graças às inúmeras várzeas surgidas por este Brasil chegamos ao Tetra Campeonato Mundial, com ginga, malandragem e  muita “descortesia” aos adversários do mundo da bola.

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