O Rei Pelé, Edson Arantes e eu

Na virada do século, trabalhei com Aníbal Massaíni na produção do filme Pelé Eterno.

Assisti a inúmeras e maravilhosas cenas de pura magia que, para baixar o custo, foram preteridas por enfadonhos depoimentos. Mas não é disso que quero falar.

Nesta semana, assisti ao documentário Pelé, produzido pela Netflix. Confesso que não muito melhor que o nosso.

Logo na abertura, me deparei com esta cena que me fez voltar no tempo. Vendo Edson Arantes caminhando com auxílio de um andador, destes geriátricos, lembrei do dia que gravamos, no velho Maracanã, uma reprodução do Milésimo Gol, com Pelé, o goleiro Andrada e as “criancinhas”, representadas por um grupo de 100 crianças do Projeto Mangueira do Amanhã.


Após gravar, repetidas vezes o famoso pênalti. Vale dizer que ora ele pedia para repetir, pois achava que poderia fazer melhor ou as crianças invadiam para comemorar o gol e a lembrança de 30 anos atrás, antes do combinado. Terminada aquela cena o Rei, se recolheu ao vestiário sem confessar as dores que sentia.

Passado algum tempo, Massaíni pediu para chamá-lo, pois continuaríamos a gravar. Percorri o túnel pensando em quantas vezes, ainda criança, me imaginei naquele túnel como jogador. Mas isso é outra história.

Logo que cheguei ao vestiário Edson, levantou-se e, apoiado no meu ombro percorremos os

intermináveis metros do túnel do Maracanã. Foram segundos ou minutos de uma longa e deliciosa viagem.

Eu, em passos lentos, “corrigia” a biografia do Rei refrescando sua memória para enfrentar as câmeras do Fantástico para a reportagem especial comemorativa aos 30 anos do Milésimo Gol. 

Edson, reclamava de dores no quadril e no joelho e Pelé, sem ouvir nenhum de nós, falava das tantas e tantas vezes que percorreu aquele túnel para encantar o mundo com gols e dribles maravilhosos.

Depois desta dolorosa e deliciosa caminhada, chegamos à escada que dá acesso ao gramado. Edson subiu com alguma dificuldade os primeiros degraus, mas no último degrau da escada ele saiu de cena. Então, Pelé caminhou em direção às câmeras, "como se fosse um Rei. E era”.

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