Morreu Mão de Onça -

Imagine como deve ser difícil escolher um, apenas um, dentre 1281 gols. Deixemos, pois, para o próprio Pelé a missão de apontar aquele que considera o gol mais lindo de sua carreira de 1375 jogos. A resposta de Pelé sempre aponta para 2 de agosto de 1959, estádio da Javari, vitória do Santos sobre o Juventus por 4 a 0. Naquele dia, Pelé não fez um, mas três gols. O último deles, no entanto, jamais saiu de sua memória. Num trabalho de pesquisa e recuperação de imagens que a história do futebol julgava perdidas, Túnel do Tempo reproduz hoje a única sequência de fotos do gol que o próprio Rei aponta como a sua obra-prima.

Pela grandiosidade do lance, todo mundo garante ter tido o privilégio de tê-lo visto ao vivo, das arquibancadas da Javari. Dá status dizer ‘‘Eu estava lá naquele dia’’. Como nem todo mundo estava de fato no campo do Juventus o lance é reconstruído de várias maneiras. Cada um o recorda de seu jeito — seja realidade ou mera ficção. Assim, um inventa um driblezinho a mais aqui, exagera numa filigrana ali... Já teve gente que falou em oito chapéus antes de a bola morrer no fundo da rede. Mentira — ou melhor, fantasia.

A verdade, contada pelo próprio Pelé, resgatada pelas fotos que hoje publicamos e recordada por dois juventinos que estavam em campo naquele dia — Pando e Clóvis —, é uma só. Foram só — só!!! — quatro chapéus. Assim. Dorval cruzou, Pelé recebeu e, primeiro, aplicou um chapéu em Julinho, lateral-direito. Em seguida, outro em Homero. O terceiro em Clóvis. Como a bola caiu em uma poça de barro (havia chovido), Pelé aguardou a chegada de Moraes, o famoso Mão de Onça, que se atirou dando um peixinho e, com um toque, encobriu o goleiro. O último golpe foi o toque de cabeça, certeiro, para o fundo das redes. Era o quarto e último gol da vitória santista.

Na comemoração, Pelé não consagrou o soco no ar, sua tradicional maneira de festejar os gols que marcava. Na verdade, o gestual que acabou se incorporando ao mito Pelé foi uma resposta do Rei a um grupo de torcedores juventinos que o vaiava desde uma dividida com Pando. Naquele lance, Pelé entrou mais forte e quebrou a perna do zagueiro adversário.

A vida de Mão de Onça foi marcada por este gol sofrido. Por isso decidi reproduzir fragmento de um texto escrito por Nélson Nunes e publicado na coluna Túnel do Tempo, do Diário Popular neste dia em que ele vai ao encontro do Rei.

É bom lembrar que este não é o lance que deu origem à expressão ‘‘gol de placa’’, outra contribuição do Rei à história do futebol.


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